Para Aristóteles, a Arte era uma "cópia" da Natureza?
A palavra grega mímesis foi vertida para o latim como imitatio, e o termo "imitação" em português, por sua vez, acabou implicando conotações de passividade que o original não possuía.
Você provavelmente já ouviu dizer que, para Aristóteles, a arte é uma "imitação" da natureza. O equívoco mais comum, porém, é acreditar que a palavra mímesis sugira uma cópia fotográfica ou uma reprodução servil da realidade. Aristóteles não idealizava o poeta como um mero copista do mundo, mas como alguém que dá forma inteligível à experiência humana.
Mas, então, se a mímesis não é uma cópia mecânica, o que ela realmente é?
A palavra grega mímesis foi vertida para o latim como imitatio, e o termo "imitação" em português, por sua vez, acabou implicando conotações de passividade que o original não possuía. Na verdade, o termo grego abriga pelo menos duas dimensões: a de representação ou figuração (próxima da imagem reconhecível) e a de encenação performativa (ligada à ação representada no teatro).
Dessa forma, quando Aristóteles chama a tragédia de mímesis, ele está querendo dizer que o teatro representa ações humanas sob uma forma estruturada – dotada de começo, meio e fim; isto é, orientada por um sentido coerente-composicional – e não que a arte dramática estaria simplesmente copiando pessoas reais.
Para Aristóteles, a tragédia é a imitação, ou, melhor, a encenação dramática, de uma ação séria, completa e de certa grandeza. Perceba que a palavra essencial aqui é “ação”: a arte não imita indivíduos isolados ou qualidades abstratas, mas a vida em pleno curso. Por isso, o enredo (mythos) é considerado a "alma da tragédia", pois é a organização dos acontecimentos que importa, e não apenas personagens e suas peculiaridades.
O caso de Édipo ilustra isso perfeitamente: o que torna sua história tão exemplar não é sua personalidade per se, mas a estrutura causal de ignorância, investigação, reconhecimento e queda que sua trajetória encena.
Para melhor esclarecer a concepção aristotélica de mimesis é interessante, ainda, tratar da distinção que o filósofo, na sua Poética, estabelece entre o Poeta e o Historiador: enquanto este narra o que de fato aconteceu, aquele representa o que poderia ter acontecido, segundo as leis da necessidade ou da probabilidade. Aristóteles afirma, portanto, que a Poesia tende ao universal, enquanto a História trata do particular.
Isso significa que uma obra poética, segundo o filósofo, não vale por registrar fatos brutos, mas por tornar visível uma cornucópia de possibilidades da ação humana, oferecendo, por meio de suas criações, uma clareza formal que a vida cotidiana, em sua dispersão, raramente nos permite enxergar.
Para ele, por consequência, a pergunta central não é se a arte deveria copiar a Verdade ou a Natureza, mas se a obra artística representa uma ação de modo necessário e verossímil. Com isso, a Mímesis aristotélica funda uma precursora defesa da Literatura como uma atividade que possui uma racionalidade própria, e a poesia, destarte, passa a ser levada a sério por sua capacidade de produzir conhecimento moralmente relevante.
Em suma, a mímesis converte a experiência caótica do mundo em forma coerente através da criação artística. Assim, para Aristóteles, ao lermos uma tragédia grega – ou qualquer grande obra clássica –, não estamos diante de uma simples cópia do mundo, mas de uma figuração única do possível. E é justamente essa estrutura organizada que nos permite reconhecer, no destino do herói ou das personagens, algo profundamente verdadeiro sobre a nossa própria condição.
Convidamos você a ler os clássicos gregos sob essa chave, enxergando neles não o passado morto, mas a vida humana elevada à sua forma mais inteligível.
Fonte: Clube de Literatura Clássica
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