A farsa dos bons costumes

Nos últimos anos, observa-se um crescimento expressivo, em todo o território nacional, do número de processos criminais envolvendo racismo e crimes correlatos.

A farsa dos bons costumes

Por Paulo Góis

Vamos chamar de “mi mi mi” — expressão frequentemente usada para desqualificar evidências e silenciar críticas — apenas para não assustar. Ainda assim, o termo mais adequado para definir o que se observa no Brasil contemporâneo talvez seja outro: *retrocesso civilizatório*. É inegável que o país carrega marcas profundas de sua herança colonial. O que causa maior espanto, porém, não é a persistência dessas marcas, mas o recrudescimento de práticas cada vez mais retrógradas, muitas vezes encenadas justamente por aqueles que se autoproclamam defensores da moral e dos bons costumes.

Nos últimos anos, observa-se um crescimento expressivo, em todo o território nacional, do número de processos criminais envolvendo racismo e crimes correlatos. Dados de novembro de 2025 do Painel de Monitoramento da Justiça Racial — iniciativa realizada em parceria com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) — indicam a existência de 13.440 processos pendentes de julgamento, dos quais 97,4% tramitam na Justiça Estadual. Apenas em 2025, foram registrados mais de 7 mil novos casos, um aumento significativo em relação ao ano anterior, quando, nos dez primeiros meses de 2024, contabilizaram-se 4.205 novos processos. Esses números não apenas revelam a persistência do problema, como desmontam qualquer tentativa de tratá-lo como exagero retórico.

No mesmo período, o país também atingiu um recorde histórico no número de denúncias de trabalho escravo, trabalho escravo infantil e de pessoas submetidas a condições análogas à escravidão. Segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), foram mais de 4.500 registros em 2025, o que representa um crescimento de 14% em relação a 2024, quando 3.959 denúncias chegaram aos órgãos competentes. Trata-se de um dado alarmante, que expõe, sem rodeios, a permanência de práticas que deveriam ter sido definitivamente erradicadas há séculos — sem contar aquelas que sequer chegam às estatísticas oficiais.

Como se os números não bastassem, a realidade insiste em fornecer exemplos concretos desse cenário. Em Mossoró, na região Oeste do Rio Grande do Norte, conforme noticiado pela Inter TV Costa Branca, um adolescente compareceu a uma festa de formatura vestindo um fardamento que fazia referência às forças armadas da Alemanha nazista. Trata-se de um movimento que, de forma irônica e preocupante, vem ganhando espaço em um Brasil marcado por sua diversidade cultural e histórica. O episódio, tratado por alguns como mera “polêmica”, evidencia a banalização de símbolos e ideologias que deveriam provocar repulsa imediata. Mais uma vez, o alerta é relativizado, reduzido a exagero ou classificado como simples “mi mi mi”.

À primeira vista, tais fatos podem parecer isolados. Não são. Constituem, na verdade, manifestações de uma onda reacionária que atravessa diferentes camadas da sociedade brasileira. O racismo não apenas persiste, como encontra terreno fértil em uma herança histórica profundamente enraizada e convenientemente negada. Uma sociedade que, em discurso, prega o amor ao próximo revela seus limites quando se sente ameaçada pelo “outro”, projetando nele os fantasmas de seu próprio fracasso. Afinal, somos todos “irmãos em Cristo” — ao menos enquanto essa afirmação não exige coerência entre palavra e prática.