O que a ‘fábrica de bots’ apreendida de Fernando Cerimedo pode revelar sobre o Brasil?

A promotoria de Justiça boliviana afirmou no final de agosto ter realizado buscas em cinco propriedades ligadas a Cerimedo, onde teriam aprendido 43 mil dólares, documentos e uma “minifazenda de bots”.

O que a ‘fábrica de bots’ apreendida de Fernando Cerimedo pode revelar sobre o Brasil?
Na foto, Eduardo aparece com a esposa de Cerimedo, a argentina Natalia Basil. Uma das teses da procuradoria boliviana era que a “namorada” boliviana estaria grávida. E isso teria motivado a tentativa de assassinat

Natalia Viana, da Agência Pública

A principal pergunta que fica é: qual é o papel de Fernando Cerimedo na atuação digital dos Bolsonaro – tanto na tentativa de golpes de 2022 quanto na atual campanha de Flávio?

Como bem notou Janaína Figueiredo, Cerimedo era bem mais do que apenas um marketeiro da direita. Ele participou ativamente de tentativas de desestabilizar governos de esquerda, além de costurar alianças com o círculo de Trump. 

Foi ele quem aproximou Trump do então candidato Asfura, através de um amigo, ex-assessor de Trump na campanha de 2017, Dick Morris.

Em março de 2025, Fernando Cerimedo foi nomeado representante e licenciado exclusivo na América Latina das empresas Campaign Nucleus e da Eyes Over, duas plataformas de inteligência artificial. As empresas surgiram após a aquisição da Cambridge Analytica por um consórcio de investidores norte-americanos. Elas foram usadas pela campanha de Donald Trump, em 2024, facilitando um gerenciamento de eleitores mais preciso. O desenvolvimento foi liderado por Brad Parscale, ex-diretor digital da campanha de Trump, e que foi sócio de Cerimedo na consultoria digital Numen – embora agora também esta empresa tente dissociar seu nome dele.  

Depois da condenação de Jair Bolsonaro e outros cúmplices por tentativa de golpe de Estado, Eduardo Bolsonaro continuou próximo de Cerimedo – os registros públicos o impedem de negar. 

Há apenas um mês, Cerimedo esteve numa live com Eduardo repetindo exatamente a mesma cascata sobre hashtags inventada pela turma de Marco Cid, conforme eu apontei nesta coluna. Nela, Eduardo disse: “Vou te agradecer aqui, tá, por essa transmissão ao vivo, pessoa de coragem, é uma pessoa que continua atuando, é empresário, analista político argentino”. Cerimedo respondeu saudando ao povo brasileiro: “Muito obrigado a você. O saúdo ao povo do Brasil. Muita, muita sorte na próxima eleição e  sempre vamos ter que lutar pela liberdade do Brasil”.

Alguns meses antes, em fevereiro, os dois estavam juntos na festa hispânica em Mar a Lago, o resort de Trump. Cerimedo foi premiado pela organização Latino Wall Street como Melhor Consultor Político Hispano do Ano. Eduardo entregou o prêmio nas mãos do argentino. “É uma honra estar aqui e abrir um espaço para um argentino. E olhem que aqui está falando um brasileiro. Mas não de que ele passou ou foi preso. E isso não é legal. Fernando Cerimedo teve a coragem de, da Argentina, ajudar o Brasil. Como? Denunciando as possíveis fraudes eleitorais que ocorreram em 2022, na eleição que colocou o socialista Lula da Silva como presidente do Brasil”, disse. E completou: “Estamos aqui hoje para dizer aos Alexandre de Moraes: não temos medo de você. Vamos ganhar as eleições de outubro”. 

Como eu já havia apontado anteriormente, a narrativa de fraude nas urnas continua firme como narrativa subterrânea na campanha de Flávio Bolsonaro. Aliás, a afirmação que o candidato fez no Jornal Nacional na semana passada, de que ela irá ganhar no primeiro turno, repete exatamente a mesma estratégia adotada por Jair. Constrói a narrativa de que, se não ganhou, é porque houve fraude.  

E Cerimedo, ao lado de Eduardo, poderia ser crucial nesta estratégia. O que se poderá descobrir sobre as fábricas de bots encontradas na Bolívia? Veremos ainda. 

Em tempo: Termino esta coluna com uma enxurrada de novas denúncias sobre uma possível relação de corrupção de Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro – o mesmo que deu pelo menos 10 milhões de dólares para o candidato Flávio Bolsonaro para o filme Dark Horse (hoje, novas revelações dão conta que podem ser mais). Não tenho tempo de ler e analisar tudo, mas se forem verdadeiros, são fatos gravíssimos que têm que trazer consequências legais. 

Entretanto, faço votos que não levem nossa sociedade a retroceder da punição histórica aos perpetradores da tentativa de Golpe de estado de 8 de janeiro de 2023, uma decisão histórica que solidificou nosso regime democrático, puniu pela primeira vez militares golpistas, e deu exemplo para o mundo. A condenação dos golpistas, embora tenha contado com a atuação fundamental de Moraes, não é obra apenas do seu trabalho, mas do empenho de todo o Supremo, da PF, do jornalismo e da sociedade brasileira, que a apoiou, a ajudou e a respalda até hoje.