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Cultura

03/04/2020 às 16h41

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Adrovando Claro

Natal / RN

A RIBEIRA DOS ANOS 30 e 40
Ribeira foi o marco inicial do comércio de Natal
A RIBEIRA DOS ANOS 30 e 40

Por Celso Paiva Martins


Aqui cheguei em 1933 com 13 anos de idade, crescí e envelhecí naquele pedacinho da Silva Jardim ao Beco da Quarentena, hoje apelidado de largo da Rua Chile. Sempre ouví dos meus ancestrais, de que a Ribeira foi o marco inicial do comércio de Natal, realmente a Ribeira era privilegiada com o porto e dois terminais de passageiros que trafegavam de trem, constantemente, aportavam navios de cargas ou passageiros em trânsito para o Norte ou para o Sul, e isto concorria muito mais para aumentar a movimentação do bairro, também era na velha Ribeira que estavam instalados os escritórios das companhias de aviação, tais como a - ‘Panair, Condor e Air France’.


O bairro também abrigava os melhores hotéis da época. Hotel Internacional, Hotel dos Leões, Hotel Avenida e outros de categoria mais inferior, que tinham muita procura pelos comerciantes do interior e isto se completava pela proliferação das casas noturnas. A Ribeira dos anos 30 centralizava todos os segmentos do comércio, quer de modas quer de exportação, era ponto também de embarque e desembargue de transportes ferroviários e fluviais.  


O comércio era assim distribuído:


a) Rua Dr. Barata - Intercessão com a Quintino Bocaiúva e Praça Augusto Severo, neste trecho ficava todo o comércio de modas de Natal, não existia a semana inglesa, o movimento maior se registrava sempre aos sábados, quando as senhoras da classe ‘A’ desfilavam elegantemente na Ribeira, rua acima, rua abaixo, portando belos vestidos, luvas e chapéus, e para aperfeiçoar a beleza das senhoras elegantes da época, existia o armarinho Santa Terezinha de propriedade de D. Letícia Cerqueira,(sogra do Dr. Jessé Café). O comércio de ferragens estava praticamente centralizado numa só loja, a C. Galvão & Cia., pertencente à família Galvão, que após uma crise na administração, acompanhada do falecimento do Cel. Clemente Galvão, principal titular, separou-se. O conhecido Galvãosinho trouxe em sua companhia o Sr. Amaro Mesquita, que era um conceituado viajante da época e juntos formaram a firma ‘Galvão Mesquita’, que  é com certeza a única que permanece desde os anos 32, porque Limarujo veio se instalar muito tempo depois . Existia também a firma ‘Gurgel Luch’ de propriedade Alemã, que por sinal eram agentes das companhias de navegação alemã que por aqui aportavam para o recebimento de toneladas e mais toneladas dos produtos regionais, tais como: Algodão,  Cêra de Carnaúba, Couros, Peles, Farinha de Mandioca e até mesmo o Açúcar Mascavo.   


b) Na Rua do Comércio, hoje Rua Chile, intercessão com a Rua Aureliano Medeiros, estava centralizado todo o comércio exportador, além dos armazéns com vendas a Grosso de Cereais, Açúcar e outros produtos correlatos, que aqui eram disputados semanalmente pelos comerciantes do interior, não somente de nosso Estado, como também dos estados vizinhos, existia na época a chamada ‘DESPENSA NATALENSE’, ou Casa Machado que mantinha grande estoque de finos produtos Nacionais e Estrangeiros, envolvendo bebidas das mais requintadas da época, e muito bem aparelhadas para o atendimento a  navios tanto de bandeira Nacional como Internacional, como também atendia as Cias. de outras praças como Fortaleza e Recife. Como grandes firmas da época ainda registro na memória a WAHRTON PEDROZA S.A., que era uma firma inglesa e que teve como sócio o pai do Dr. Sílvio Pedrosa, considerada a maior exportadora de algodão do nosso Estado, a LAFAYETE LUCENA, que foi adquirida por Dinarte Mariz, a FERNANDES & CIA., uma associada da firma mais antiga do Estado, a TERTULIANO FERNANDES (Mossoró) e também a M.F. DO MONTE, depois MONTE REBOUÇAS LTDA., esta não exportava somente algodão, como também o Caroço do Algodão, Cera de Carnaúba, Borracha de Maniçoba, entre outros. Estava também localizada na Rua Chile as instalações da firma MARTINS, IRMÃO & CIA., que comprava produtos regionais desde o Couro do Sapo ao Açúcar Mascavo, existindo até hoje embora com a espinhela caída, com razão social de MERCANTIL MARTINS IRMÃO S/A., modificação esta feita por força da transformação  em S/A. no ano de 1965. (Reservarei um capítulo para fazer comentários a respeito da mesma), fora os exportadores já citados que se instalaram neste trecho de Natal, existia também o comércio grossista de tecidos, entre eles lembro-me do João Galvão Filho, David Cunha, Alves de Brito S/a,; na parte de estivas recordo-me de L. Barbosa & Cia. Ltda., -  Cunha, Maia & Cia.; entre as representações se destacava a Gurgel, Amaral & Cia., pois além de trabalhar com boas representações, mantinha por conta própria  um grande estoque de material para o campo que variavam desde o Balde para leite a mais sofisticada Campinadeira, era formada por três irmãos, o Sr. Salviano Gurgel, o Manoel Gurgel e o terceiro que não me recordo mais o nome, a firma foi fundada pelo pai deles. Outra firma que se destacava em representações era a Mesquita & Cia. Ltda., que por conta própria mantinha agenciamento a Cia. de Navegação Pereira Carneiro, atualmente Cia. Comércio e Navegação. Não alcancei funcionando, mais lembro-me das instalações da firma dos Tinocos, inclusive o Sr. José Tinôco, foi sócio do Sr. Enico Monteiro, que na época comercializava peles e algodão.     


c) Avenida Tavares de Lyra – Conhecida como centro das confabulações políticas da época, muito freqüentada pelos políticos e empresários considerados de elite, que formavam o Partido Popular Brasileiro, O Perrepismo – No Café Cova da Onça - Os Cafeístas e Maristas - (Pessoal de Mário Câmara). Os aliados de Café não tinham vez, era encostar por lá e o fogo falava no centro. Foi exatamente neste trecho de Natal que conheci o carnaval até 1935, depois passando para a cidade alta. Existiam também as firmas que vendiam automóveis e acessórios, tudo importado, ainda gravo na memória a M. MARTINS & CIA., SEVERINO ALVES BILA, SANTOS & CIA. LTDA. (já nos anos 40). As principais agências de aviação como a - ‘AIR FRANCE, CONDOR e PANAIR’ -  ficavam nas intermediações da Rua Frei Miguelinho com a Tavares de Lyra. A única agência de Banco, com exceção do Banco de Natal (antigo BANDERN), era a Agência do Banco do Brasil localizada esquina com a Quintino Bocaiúva e Tavares de Lyra.       


d) Rua Frei Miguelinho – Outrora totalmente residencial, aqui, acolá, via-se uma bodeguinha, que existiam em função das proximidades do Mercado da Tatajuba. A expansão do comércio nesta rua deve-se muito ao meu tio, o saudoso Vicente Martins, que pode ser considerado um desbravador desta rua. Onde hoje se localiza uma repartição da Prefeitura, que era de propriedade do Sr. Otacílio Maia, funcionava lá a Cia. De Navegação Conteira, que posteriormente foi alugada a firma João Câmara, que já possuía um depósito na Rua Chile (deixei de mencionar quando falei da Rua Chile, porque este depósito era utilizado somente para o recebimento de de mercadorias vindas das filiais do interior), apesar de ter sido um grande empresário no setor das exportações, somente veio a ser reconhecido após a guerra, falecendo poucos anos depois. Possuía boas fatias das exportações, porém era audacioso e um autentico ditador, sempre teve como meta acabar com qualquer concorrente de médio porte, onde ele descobria que tinha um cliente dele querendo se tornar independente – com a força política mandava arrochar – a única saída era o camarada vender o estabelecimento a ele ou encerrar as atividades antes que ficasse na pior. Eu não tenho lembrança que exista gente por aí se considerando rico ou mesmo arremediado que tenha recebido ajuda de João Câmara, muito pelo contrário, pois se formos analisar direitinho ele não a menor chance nem mesmo para aqueles que derramara o suor pela empresa, acabaram sendo rejeitados pela própria família não se beneficiou em nada.     


e) Avenida Shachet, (hoje Duque de Caxias): - Ali não existia comércio a não ser o Posto de Antonio Farache, um Cartório, o Hotel Avenida, Recebedoria de Rendas. A avenida era praticamente tomada por residências de Classe ‘A’, inclusive a mansão do Dr. Januário Cicco, Odilon Garcia, etc. Nos anos 40, o Sr. Francisco Varela (Chico Varela) construiu o edifício Campielo, onde foi ocupado pelo Banco do Brasil por um longo período. Onde hoje está localizado o Banco do Brasil era a residência do Sr. Anaxmando, um tradicional comerciante. Na Rua Ferreira Chaves existia parte do comércio e outra parte para residências, além da delegacia e a chamada chefatura de polícia. O ramo de comércio alí existente se estendia por toda Rua do Triunpho (hoje denominada 15 de Novembro), abrangendo com abundância a Rua Almino Afonso e as adjacências, e era o comércio do mulheril.   


f) Praça Augusto Severo: - Como toda a cidade que tem o seu cartão postal, o de Natal era exatamente a Ribeira, com predominância pela Praça Augusto Severo, que era muito bem conservada, bem arborizada e a noite recebia vindas da cidade alta as moças que alí faziam o FOOTINF. A Ribeira tinha o privilégio de possuir duas estações ferroviárias, uma conhecida como a ‘Central’ que trafegava dentro do Rio Grande do Norte, e a outra a  ‘Greet-Western’ dos ingleses que trafegava entre Natal e Recife, conduzindo dos mais sofisticados passageiros a Cargas para o comércio local; teve a Ribeira os melhores estabelecimentos de ensino da época, como o Colégio Pedro II (onde o escriba deu os seus primeiros passos), a Escola Normal e a Escola Doméstica.  


Quem mais contribuiu para a desativação da velha Ribeira foi o fechamento da Estação Rodoviária, porque nela embarcava e desembarcava os pequenos comerciantes que vinham do interior para comprar aqui mesmo na Ribeira.


Apesar desta velha Ribeira ter sido considerado o centro nerválgico de toda atividade comercial econômica, social cultural e política nos anos 30, só veio melhorar um pouquinho relacionada com construções de edifícios para a época se considerava o máximo no ano de 1935, para cá os principais são: O Prédio do Grande Hotel (1935), Edifício do Bandern (1939), Edifício S. Bila. (1940), Associação Comercial (1942), Ed. Fernando Costa Agricultura (1943), Edifício Mirmão (1959), Edifício Quinho Chaves (1954), Banco da Lavoura (1968) e Banco do Brasil (1968)


Meios de Comunicação – Era bem mais difícil, as comunicações para fora do Estado, e na Capital só existia a Rádio EDUCADORA, fundada por alguns empresários local que eram entusiástica destas coisas. Tivemos bons serviços de Alto Falante, de propriedade do Sr. Romão, estabelecido com uma casa de revistas e jornais e poucos livros. Ele tinha sido gazeteiro em sua terra Natal-Recife.   


A Western Telegraphi – Inglesa (1942)


A Rádio Internacional – Radional (1948)


e o Serviço de Telefonia Automática, instalado pela Cia. Força do Nordeste, dos Ingleses (1943). Portanto meu amigo, é tudo quanto posso falar sobre a Ribeira.


 

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