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Esportes

05/12/2021 às 15h53

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Adrovando Claro

Natal / RN

América Futebol Clube: Mais de um século de existência - Parte 1
A reunião oficial para fundação do novo clube, no dia 14 de julho de 1915, feriado nacional comemorativo da “Queda da Bastilha”, na França
América Futebol Clube: Mais de um século de existência - Parte 1

Por CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES


A Cidade Alta foi o berço da povoação da terra de Poty. Ainda província, suportou as agruras decorrentes do Primeiro Grande Conflito Mundial, onde o cenário emocional que prevalecia era o das sequelas decorrentes da guerra iniciada em 1914 e só terminada em 1918, caracterizada pela falta de suprimentos, dificuldade de crédito e incerteza política.


Nessa contingência histórica pouco havia em que se ocupar e o esporte passou a ser motivação da nossa juventude, já acostumada ao remo no Potengi. E foi no corredor histórico da cidade que surgiu o primeiro movimento visando a concretização da vida esportiva em nova modalidade – o futebol. Diria que para isso teve um incentivo a mais, o conhecimento de um artefato de couro chamado “ bola” quando em 1872 aqui aportaram marinheiros do navio Criméia. Posteriormente houve a introdução no Brasil do jogo de futebol, por inspiração a Charles Muller, em 1894, que trouxe modelos de regulamentos do velho continente.  Aqui em Natal ela chegou pelas mãos dos estudantes que vinham da Europa, integrantes da família Pedroza, que criou o Sport Club Natalense (ou Natal Sport Club) em 1907, através de Fabrício Pedroza Filho


Por conseguinte, havia na cidade um verdadeiro clamor pela formação de equipes e a concretização começou com o ABC, por iniciativa de jovens atletas residentes nos bairros da Ribeira e Rocas, conhecidos como “canguleiros”, em 29 de março, na parte baixa da avenida Rio Branco, aos fundos do Teatro Carlos Gomes, hoje Alberto Maranhão, na residência do coronel Avelino Alves Freire - respeitado comerciante e presidente da Associação Comercial do RN.


Seguindo idealismo semelhante e sem nenhum espírito de dissidência, jovens atletas do bairro da Cidade Alta e cercanias fizeram uma reunião preparatória no dia 11 de julho de 1915, coincidentemente também na Rua Nova (atualmente Av. Rio Branco), porém na parte alta (centro da cidade) na residência do Senhor Manoel Coelho de Souza (Inspetor da Alfândega), local que corresponde à proximidade do prédio onde funcionou, por muito tempo, a Livraria Universitária, aprazando-se a reunião oficial para fundação do novo clube, no dia 14 de julho de 1915, feriado nacional comemorativo da “Queda da Bastilha”, na França. Fato ocorrido na residência do Desembargador Joaquim Homem de Siqueira Cavalcanti, situada na Rua Vigário Bartolomeu, possivelmente nº 565, antiga Rua da Palha na Cidade Alta, precisamente em uma dependência onde ocupavam os irmãos Carlos e Oscar, que dava para o Beco da Lama, depois Rua Vaz Gondim e hoje Rua Professor José Ivo, que recebeu inicialmente o nome de América Foot Ball Club, expressão inglesa muito em voga, quinze dias depois da fundação do ABC que, no futuro, tornar-se-ia o seu principal adversário.


Numa sequencia cronológica, a mesma intenção ocorreu com um grupo de rapazes atletas, formado por Lauro Medeiros, Pedro Dantas, Cel. Solon Andrade, José Firmino, Café Filho (ex-goleiro do Alecrim em 1918 e 1919), que foi Presidente da República, e ainda: Lauro e Humberto Medeiros, Gentil de Oliveira, José Tinoco, Juvenal Pimentel e Miguel Firmino, que em reunião realizada na casa do Cel. Solon Andrade, no dia 15 de agosto de 1915 fundaram, no então longínquo bairro do Alecrim o clube piriquito (cor verde), então denominado ALECRIM F.C. com um objetivo a mais - ajudar de forma filantrópica as crianças pobres do bairro que lhe deu origem.


Sobre o Mecão centenário existem informações que, antes de se pensar sejam conflitantes, em verdade se completam num raciocínio lógico, uma vez que a cada reunião compareciam os rapazes, não necessariamente todos numa mesma sessão, mas numas e noutras. Inicialmente foram 15, depois 27, ainda 36. Enfim, após pesquisas e informações adicionais chegamos ao número de 38, (versões comparadas de Gil Soares, Oscar Siqueira, José Rodrigues de Oliveira, Miguel Leandro, Carlos Barros, Lauro Lustosa, Fernando Nesi e Luiz G.M.Bezerra):


1 – ABEL VIANA, estudante e foi proprietário de uma das mais tradicionais padarias de Natal;


2 – AGUINALDO CÂMARA, conhecido por “Barba Azul”, irmão da Profª Belém Câmara;


3 – AGUINALDO FERNANDES DE OLIVEIRA, filho do Des. Luiz Fernandes;


4 – AGUINALDO TINOCO, filho do Cel. João Juvenal Pedrosa Tinoco, chefe da firma Pedrosa & Tinoco & Cia.;


5 – ANIBAL ATALIBA, filho do velho Ataliba, da Estrada de Ferro Central /RN e grande amigo do trovador João Carlos de Vasconcelos;


6 – ANTONIO BRAGA FILHO, empregado da “Casa Lotérica”, de Cussy  de Almeida;


7 – ANTONIO DA ROCHA SILVA (Bidó), cunhado do falecido Aurélio Machado França, funcionário federal;


8 – ANTONIO TRIGUEIRO, empregado da Loja “O Amigo do Povo”, de Felinto Manso, na Praça do Mercado, Cidade Alta;


9 - ARARY DA SILVA BRITO, funcionário do Ministério da Fazenda, Oficial Administrativo da Alfândega/Natal e de Tributos Federais da Alfândega/RJ;


10 - ARMANDO DA CUNHA PINHEIRO, filho do Prof° João Tibúrcio e falecido como tenente do Exército;


11 – AUGUSTO SERVITA PEREIRA DE BRITO (Pigusto), funcionário do Departamento de Segurança Pública do Estado;


12 – CAETANO SOARES FERREIRA, amazonense e irmão do 2° Presidente Getúlio Soares Ferreira;


13 – CARLOS DE LAET, filho de João Antonio, da Brigada do Exército;


14 – CARLOS FERNANDES BARROS, fiscal de Consumo, aposentado;


15 – CARLOS HOMEM DE SIQUEIRA, funcionário da Estrada de Ferro Central do Brasil/RN;


16 – CLINIO BENFICA, estudante, nascido em Baixa Verde (hoje João Câmara);


17 – CLOVIS FERNANDES BARROS, comerciário, passou a residir em Recife/PE;


18 – CLODOALDO BAKKER, estudante e funcionário federal;


19 - EDGAR BRITO; 


20 - EUCLIDES OLIVEIRA, nome acrescentado pelo tabelião Miguel Leandro;


21 - FRANCISCO LOPES DE FREITAS, chefe do expediente da Prefeitura de Natal e do Dep. De Finanças e campeão de bilhar em Natal, amante do remo e apontado como 1º Presidente do América no período de 14/7 a 14/12/1915.  Assinala-se o nome de FRANCISCO LOPES TEIXEIRA também apontado como 1º Presidente. Contudo, pela similitude do nome, cremos que se trate da mesma pessoa;


22 – FRANCISCO PEREIRA DE PAULA (Canela de Ferro), estudante e funcionário público;


23 – FRANCISCO REIS LISBÔA, estudante falecido ainda jovem;


24 – GETULIO SOARES FERREIRA, 2° Presidente do América por eleição direta por aclamação (15/12/15 a 14/12/16). Era campeão de Natação pelo Centro Náutico Potengi, tendo treinado para uma das Olimpíadas. Amazonense, ingressou no Banco do Brasil e serviu em Natal;


25 - JOAQUIM REVOREDO, nome apontado pelo tabelião Miguel Leandro;


26 – JOÃO BATISTA FOSTER GOMES SILVA (Padaria), funcionário de “A República” e responsável pela cobrança/América;


27 – JOSÉ ARAGÃO, estudante e funcionário público;


28 – JOSÉ ARTUR DOS REIS LISBÔA, estudante, irmão de Francisco, ambos filhos do Capitão do Porto, Reis Lisboa, intelectual, foi Delegado de Policia em Recife;


29 – JOSÉ FERNANDES DE OLIVEIRA (Lélio), estudante. A família residia no “chalet” da av. Rio Branco, onde morou o Dr. Solon Galvão, esquina com a rua Apodi;


30 – JOSÉ LOPES TEIXEIRA, comerciário e irmão de Francisco Lopes Teixeira (de Freitas), 1° Presidente eleito, por aclamação, na reunião de fundação;


31 – LAURO DE ANDRADE LUSTOSA, empregado da firma Olimpio Tavares & Cia.;


32 – LUCIANO GARCIA, estudante, posteriormente funcionário público;


33 – MANOEL COELHO DE SOUZA FILHO, estudante, que muito se esforçou para as atividades do clube. Faleceu no Rio de Janeiro;


34 – MARIO MONTEIRO, irmão do falecido telegrafista Orlando Monteiro.  Trabalhava no semáforo da torre da Catedral;


35 – NAPOLEÃO SOARES FERREIRA, irmão de Getúlio e Caetano Soares Ferreira;


36 – OSCAR HOMEM DE SIQUEIRA, estudante, atleta e Presidente do América, que alcançou o alto posto de Desembargador, como seu pai Joaquim Homem de Siqueira;


37 – SIDRACK CALDAS, irmão de Abdenego Caldas, figura ilustre da cidade;


38 – VITAL BARROCA, eleito Vice-Presidente para a segunda gestão, iniciada em 15/12/1915.


DIRIGENTES:


GALERIA DE PRESIDENTES


14/7 a 14/12/1915 - Francisco Lopes de Freitas 


15/12/1915 a 1928 - Getúlio Soares, com circunstanciais convocações dos auxiliares Vital Barroca, Aníbal Barata, Oscar Homem de Siqueira, Aníbal Ataliba, Clidenor Lago, Carlos Fernandes Barros, Afonso Joffily, Zélio Perouse Pontes, Oswaldo da Costa Pereira e Clóvis Fernandes Barros;  


1928 a 1930 José Gomes da Costa;


1931 a 1932 Edgar Homem de Siqueira e Álvaro Pires; 


1933 a 1934 Osório Bezerra Dantas;


1934 a 1935 João Tinoco Filho, com eventuais convocações de Humberto de Oliveira, João Bezerra de Melo, José Otoch e Oscar Homem de Siqueira;


1935 a 1936 Afonso Ligório Pinheiro;


1937 a 1938 Clóvis Fernandes Barros;


1938 a 1941 Rui Moreira Paiva;


1942 a 1943 Humberto de Oliveira Fernandes;


1944 a 1945 Humberto Nesi;


1945 a 1947 Rui Barreto de Paiva;


1947 a 1950 José Rodrigues de Oliveira;


1951 a 1953 -  Miguel Carrilho de Oliveira;


1953 a 1956 Jeremias Pinheiro da C. Filho;


1956 – 1958 Murilo Tinoco Carvalho;


1958 a 1961 Heriberto Ferreira Bezerra;


1961 a 1964 Ulisses Cavalcanti;


1965 a 1970 Humberto Pignataro;


1970 a 1972 Hugo Manso;


1972 a 1974 Dilermando Machado;


1974 a 1976 José Vasconcelos da Rocha;


1976 a 1978 Carlos Jussier Trindade Santos


1979 a 1980 Dilermano Machado;


1980 a 1984 Henrique Arnaldo Gaspar;


1985 Amando Homem de Siqueira, falecido no curso do mandato e sucedido por Adroaldo Fonseca até o final do mandato;


1985 a 1992 Carlos Jussier Trindade Santos


1993 a 1994 Fernando José de Resende Nesi, que renunciou em 23/02/94 (dia do seu aniversário), sucedido de fev. a dez. 1994 por uma Junta Governativa formada por Cláudio Bezerra, Rogério Vilar, Walter Nunes da Silva, Zacheu Santos e Marcos Antônio B. Cavalcanti;


1994 (01/12) a (01.04.1996) Marcos Antônio B. Cavalcanti, sucedido, por sua renúncia por José Maria Barreto de Figueiredo;


1997 a 1998 Eduardo Serrano da Rocha;


1998 a 1999 Roberto Bezerra (dez. 98 a maio de 99), sucedido por Cláudio Negreiros Bezerra e Carlos Jussier Santos (60 dias);


1999 e 2000 Pio Marinheiro, renunciou com 45 dias, assumindo Jerônimo Câmara Ferreira de Melo;


2001 a 2003 José Vasconcelos da Rocha;


2003 a 2005 Francisco Soares de Melo, Roberto Bezerra Fernandes, a partir de janeiro de 2005 e por 45 dias, e depois José Vasconcelos da Rocha; 


2006 a 2007 Gustavo Henrique Lima de Carvalho;


2008 a 2009 José Vasconcelos da Rocha;


2010 a 2011 José Maria Barreto de Figueiredo (12/01/2010 a 20/10/2010), com sua renúncia assume Clóvis Antônio Tavares Emídio (21/10/2010 a 10/5/2011) e a partir de maio de 2011 assume Hermano da Costa Moraes;


2012 a 08/01/2014 Alex Sandro Ferreira de Melo (Padang);


2014 a 2015 Gustavo Henrique Lima de Carvalho, licenciado em 19/5/2015 e Hermano da Costa Moraes, em exercício.


Nos primitivos registros verbais obtidos dos mais antigos, a Primeira Diretoria Provisória para o período de 14/7 a 14/12/1915 contava com Francisco Lopes de Freitas na Presidência; Vice-Presidente Oscar Homem de Siqueira, Orador Getúlio Soares Ferreira, depois escolhido por aclamação como novo Presidente (período 15/12/15 a 14/12/16), e mais Manoel Coelho – Secretário, Napoleão Soares Ferreira – 2º Secretário, José Fernandes de Oliveira (Lélio) – Diretor de Esportes, José Lopes Teixeira – Tesoureiro e João Batista Foster Gomes da Silva (Padaria) como Cobrador. Na gestão do 2º Presidente foram escolhidos outros dirigentes nas pessoas de Vital Barroca, Vice-Presidente (este não consta em nenhuma das versões entre os fundadores); Mário Monteiro, Secretário; Clóvis Fernandes Barros, Tesoureiro; Francisco Lopes de Freitas, Diretor Técnico e Manoel Coelho Filho, Guardião de Materiais. 


Sob o prisma legal, no entanto, o América é o clube mais antigo do Rio Grande do Norte, haja vista que a publicação do seu primeiro estatuto ocorreu no dia 02 de julho de 1918 no jornal A República de nº 144, 2ª página e o seu registro em Cartório aconteceu no dia 03 de julho de 1918, enquanto nosso maior e respeitável rival só providenciou o seu registro em 13 de dezembro de 1927.


O fato de ordem legal que gerou a oficialização do clube, narrada pelo velho americano Lauro Lustosa, diz que foi em razão de um acontecimento inusitado, quando num treino no campo da praça onde hoje é a Catedral: “o então Coronel Júlio Canavarro de Negreiros Melo, Comandante do 40º Batalhão de Caçadores, que ali passava no dia 3 de junho de 1918, foi atingido por um chute, o que motivou a determinação dada ao seu ordenança armado com um sabre, para furar a única bola que o clube tinha para treinar e jogar, tendo sido o América obrigado a buscar sua personalidade jurídica para poder entrar com uma ação indenizatória, através do advogado Bruno Pereira em nome do então Presidente Oswaldo da Costa Pereira. Para tanto, os estatutos foram registrados pela primeira vez no dia 3 de julho de 1919, no Primeiro Ofício de Notas, em documento assinado pelo então presidente Oswaldo da Costa Pereira.” Nessa narrativa há o equívoco do ano do registro, que deve ser considerado como 1918, isto é, no dia que se seguiu ao da publicação do estatuto. Essa ação intentada não chegou a ser julgada porque o Governador Ferreira Chaves resolveu indenizar o clube, evitando maiores consequências do incidente em razão do que foi adquirida nova bola, marca “olimpic”, e uma sobra ficou para as comemorações. Mas, de qualquer forma, o América ganhou existência legal.


Seu uniforme, inicialmente ao tempo da fundação era azul (camisa) e branco (calção), porquanto existia um antigo clube denominado Sport Club Natalense (Natal Sport Club), onde alguns dos fundadores nele atuavam e já usava as cores branca e vermelha. Com a extinção deste, o América trocou as suas cores, que eram as preferidas desde a fundação, coincidindo com o que adotavam outros times com o mesmo nome em outros estados, isto é, “encarnado e branco”, como já constou no registro do estatuto. Obviamente que as bandeiras guardaram as cores de cada época. De qualquer forma essas cores findaram coincidindo com as cores da bandeira da França.


 


 

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