domingo, 25 de outubro de 2020
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Cultura

18/09/2020 às 15h00

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Adrovando Claro

Natal / RN

ATO DE ESPERAR
Para ouvir, a música preferida, já deixada no ponto do aparelho de som. Uma toalha de mesa em dégradée de azul para recosto dos braços e repouso dos olhos
ATO DE ESPERAR
Ilustração: Adrovando Claro

      Esperar...  Esperei!


      Tive um sono inquieto. Neurastenia matinal. Rabisquei em folhas de papel, combinando ideias. Fiz agenda. Sondei as preferências da pessoa esperada, e parti para a batalha, a me embarafustar na trama dos preparativos. Engendrei a “arena” em seus mais variados detalhes, que, tão imperativamente, o ato de esperar reclama. Nem sempre a pessoa esperada imagina os reveses passados pela outra que a espera. Esta se angustia na busca do melhor para agradar àquela.


      Para ouvir, a música preferida, já deixada no ponto do aparelho de som. Uma toalha de mesa em dégradée de azul para recosto dos braços e repouso dos olhos. Um abajur, estrategicamente deposto, luz difusa. Para degustar, tamarindos colhidos de uma galhada que me chega do vizinho. Triturados no liquidificador, açúcar no ponto, como convém. Suco contido em jarra de cristal. Cubículos de gelo empilhados em baldinho de aço, a refletir um pratinho de biscoitos inconvenientes de uma padaria de conveniência. Uma garrafa de vinho tinto, austera, patrulhando a área, não se constituindo, por si só, uma preferência, mas um elemento circunstancial, quase uma exigência. Ensaio mentalmente os primeiros cumprimentos. Repasso vários temas para florear a conversa. Naturalmente polêmicos, nunca que desperte acirradas controvérsias; muito pelo contrário.


      Surpreendo-me com os intermitentes olhares de través num antigo relógio de parede que parece se arrastar, contrariando o tempo, retardando o momento. Escudo-me em alguns maneirismos filosóficos: esperar é antecipar; é navegar na incerteza; é desbravar o desconhecido. Peito arfante, fôlego entrecortado. Atitudes empoleiradas na paciência que é para não (des)esperar. E voa o tempo, monitorado pelo pêndulo, embalado pelo retinir prosaico de um  tique-taque... tique-taque... tique-taque...


       Enfim, chega a hora. E ela não traz consigo a persona grata. Nenhuma satisfação sequer. E como ele, o tempo, é implacável. E como degringola após a hora marcada. E como vai fugindo sorrateiro, num acelerar de bicho assustado, manobrando para evitar desculpas, levando as esperanças, deixando a angústia, e, esquecendo como sobras  o entorpecimento no corpo e uma amarga sensação de vazio na alma.


       Festa solo.


       Garrafa devassada, entre uma taça rebrilhante de púrpura e outra imaculada. Biscoitinhos mordidos. Dolentes acordes de um piano,  assemelham-se a um noturno “chopiniano”.  Um estranho jogo onde todos os elementos combinados se desfazem e se desencantam ante a inconsequência do inesperado. Comum ao destino de todos nós - esperar - numa linguagem mais aberta se traduz pela eterna busca e expectativa de outrem. A outra parte de nós mesmos, perdida nos confins de um remoto passado. A segunda peça do quebra-cabeça que complementaria o ser.


       Esperar... Esperei!


Rui López -  é escritor, cineasta e roteirista.


 

FONTE: Rui Lopes

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